O Crime do Século XXI (2006)

O Crime do Século XXI
O Crime do Século XXI

Não é porque somos animais que somos inumanos, nós
somos inumanos porque procuramos ser humanos em sociedades inumanas. A loucura social é incapaz de compreender este paradoxo. Há duas componentes em o Crime do Século XXI. A primeira componente é o mundo real criado pela economia, pela tecnologia e pela administração. Estas fizeram do mundo uma solidão selvagem e da sociedade um deserto. À medida que a sociedade se
desmoronava, a administração reorganizava-a para a tornar mais fácil de controlar. Metia toda a gente em prisões e guetos, réplicas dos nossos campos de concentração e dos nossos goulags. A administração e os soldados estão por todo o lado, desfilam no céu mas nunca são vistos. Tudo isso se passa no futuro. A outra situa-se no presente porque já está nas nossas imaginações. Quatro indivíduos na solidão selvagem representam o seu «teatro» individual em termos universais. O que corresponde ao nosso presente porque quando temos uma apreensão ou um medo do futuro, o próprio futuro tornasse um fardo real e objectivo que pesa ao nosso presente. Vergamo-nos sob o pes dum fardo que ainda não carregamos – esmagados pelo terror que ele nos inspira – e
destruímo-nos a nós próprios para nos descobrirmos. Eis o «teatro» oculto que hoje se desenrola nas nossas imaginações – os seus sintomas aparecem já na nossavida quotidiana e social. O teatro encontra imagens para revelar este «teatro» oculto e tentar evitar que a sua realidade nos conduza à extinção.
Uma saga escandinava diz que uma vida humana passa com a velocidade do pardal que penetra pela janela numa extremidade do Salão para sair pela janela situada na outra extremidade. Imaginem que todos os seres humanos se tenham destruído uns aos outros, que um dia um pardal encontra um trapo tecido à muito tempo por mão humana, que lhe pega com o bico e saia voando para o incorporar no seu ninho – e que diante deste espectáculo toda a criação estremeça. Os poetas não podem contar esta história. O resto de trapo tornou-se concebível e nós já fizemos estremecer a criação com as nossas bombas. Nós devíamos ter medo do futuro. Já lá fomos.

In BOND, Edward, La Trame cachée, Paris, L’Arche, 2003.

O Crime do Século XXI
O Crime do Século XXI

Na orientação estética e artística seguida pelo Fontenova, era natural que, mais tarde ou mais cedo, surgisse no seu reportório Edward Bond, dramaturgo e encenador inglês contemporâneo, reconhecido no mundo e principalmente na Europa pela actual e controversa nova estética teatral.
Uma dramaturgia de grande intervenção política e social, onde a obra não se define por um só elemento (o texto, as personagens ou a temática), mas sim pelo conjunto que todos eles representam. É principalmente na peça como um todo que reside a base da sua estética, «Nas minhas peças, a linguagem pertence à peça e não ao personagem» (Bond). A temática forte e de grande intervenção social e política é, como já foi dito, uma constante no seu teatro, bem como no reportório do TEF, mais um ponto comum que determinou a escolha de “O Crime do Século XXI”. Foi com estas palavras que Bond definiu a sua peça: «Um ditador não seria capaz de criar o mundo descrito em O Crime do Século XXI. Haveria uma contra-revolução. Mas, pouco a pouco, a democracia, ela sim, é capaz de o criar. À medida que a sociedade se desintegrar, a autoridade tornar-se-á mais dirigista e repressiva. Deixará de haver protesto social porque tudo o que a autoridade promover será promovido no sentido de proteger os bens e o consumo e de castigar todo o comportamento associal. As próprias vítimas aceitarão a necessidade moral dessas medidas.

A democracia auto-destruir-se-á em nome da própria democracia. Quando a democracia estiver destruída, a própria capacidade de perceber a dimensão dessa destruição estará destruída. […] O mundo do Crime do Século XXI é impensável. Mas a História demonstra que o impensável acontece sempre – que se torna inelutável. […] Em 1900, as pessoas imaginavam os desastres do século XX. Enganavam-se. Previam as invasões vindas do espaço e as guerras entre os mundos. Não previam as três guerras mundiais, nem os genocídios nem os goulags. […] Para conhecer o futuro temos de conjugar razão e imaginação. A obra dramática pode fazê-lo.» (Bond). O teatro de Bond tem como temática central o homem a sua humanidade e a sua inumanidade, a justiça e a fome dela, o que o torna actual e interventivo hoje e no
futuro.

José Maria Dias
Texto: Edward Bond
Encenação, Espaço cénico e Desenho de Luz: José Maria Dias
Tradução: António Henrique Conde
Interpretação: Laurinda Tojo ou Graziela Dias; Mouzinho Larguinho; Eduardo
Dias; Rafaela Bidarra.
Assistência de encenação: Mónica Garcia e Laurinda Tojo
Figurinos: Graziela Dias
Confecção de figurinos: Helena Gomes
Operação Luz e Som: Júlio Mendão
Montagem: Júlio Mendão

Fotos

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