O Solário (2004)

Do Autor sobre a Peça – Breve nota para a Memória

“Há pessoas que dizem (mentindo com os dentes todos, creio eu) que não têm memória. Agem como se ela se pudesse apagar com uma borracha, como se fosse uma leitosa pedra de gelo, derretendo, sem defesa… Há pessoas que vivem num afã, dentando terra preta e húmida em cima do passado; em pânico; evocando toda a corte do céu para não o revistarem.

O SOLÁRIO é uma alegoria, uma viagem ao passado.

Ao nosso.

Recente.

Passado que tenho à cabeceira da memória, assim como outros têm, à cabeceira da cama, um Cristo de marfim ou uma Senhora do Carmo, de barro vidrado.

São coisas, cheiros, pedaços, ecos, imagens.

De avós com saias de baixo, guarnecidas a primorosos bordados; de mesas de consolada em alvíssimas toalhas, de um esquilo de lata e corda mecânica.

Estas, doces.

E tão amargas, outras.

O Prof. Carlos de Sousa, deixando os alunos recitas Alda Lara, nas aulas de dicção, no velho casarão da Rua dos Caetanos, começo que, sob os esfiapados tapetes do Conservatório, estivessem bufos, podes e coisas assim; o Mundo inteiro ignorando-nos, isolando-nos, humilhando-nos, durante cinquenta anos; o Silva esmigalhado por uma mina, sem temo para o seu curso de Regente Agrícula, para viver.

Por isso este texto.

Que me dói.

Que eu queria que vos doesse.”

  • Fernando Augusto

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Ficha Técnica

Autor: Fernando Augusto | Encenação/Desenho das Luzes: José Maria Dias | Cenografia: Graciete Claro | Figurinos/Guarda-Roupa: Graziela Dias | Design Gráfico: Paula Moita | Música Original: Carlos Curto e A.Dvorák | Operação de Luzes e Som: Paulo Pereira | Montagem: Júlio Mendão | Execução do Cénario: José Gomes e Júlio Mendão | Produção: Graziela Dias e Hugo Sousa

Agradecimentos: Maria Clara Augusto, Rita Leal, Rosa Grenha, Ana Félix